quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

FOI EM 2006...

...durante a Copa do Mundo e uns meses antes do Tim Festival com os Beastie Boys e o Yeah Yeah Yeahs. Eu tinha 22 anos, cursava Comunicação Social na Federal. Era meu terceiro ano morando no Centro com o Tito, e eu sentia que a minha vida não ia muito pra frente. Que a força que tinha me carregado até ali estava desligando aos poucos. Que algo muito ruim ia acontecer. E toda vez que eu tentava falar, toda vez que eu me perguntava se era a única pessoa que via as coisas daquele jeito, era como se tivesse gritando numa caverna e ouvindo a minha própria voz gritar de volta pra mim. A atmosfera era otimista, mas ninguém sabia disso na época. Você me perguntou uma memória para enterrar. Acho que eu gostaria, na verdade, de poder tirar as coisas de dentro da terra. É engraçado, aquele foi meu último ano sem saber o que era cuidar de alguém além de mim mesmo. Tudo podia acontecer e acontecia. O otimismo era a fumaça de cigarro que cobria os rostos dos meus amigos, eram as risadas e a cerveja escorrendo no canto da boca, era pegar uma DP, levar um fora, brigar com os pais e encher a cara pra esquecer. Era poder desligar a internet. Era chegar em um lugar sem saber quem você iria ver, mas sabendo que veria alguma coisa. Era fechar os olhos e bater os braços e sentir a música e desviar das luzes com a certeza que dali uma semana tudo ia rolar de novo, mas de um jeito diferente. Era se sentir muito imaturo e muito sábio ao mesmo tempo. Muito enfurecido e meio ingênuo. Até quando a gente chorava e esperneava era otimista, só que a vida era engraçada e eu era sério. Quando eu percebi que podia ser engraçado, já era tarde demais, e a vida tinha ficado séria também. Aquela noite na Trajano foi a última noite antes de eu envelhecer. E a gente envelhece e esquece. O Gengis Khan sabia que meu medo era que ninguém lembrasse de mim, e você veio pra me ajudar a superar isso. Acho que você esperava que eu te contasse como era estar no Wonka, das Quartas Rock na James, de sair pelo Largo com meus amigos, paquerar, gostar de alguém, como era ser jovem, enfim. Mas eu não sabia que era jovem. E você é jovem agora, filha, mas também não sabe disso. A gente nunca sabe quando é.



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